Por Jacques
Távora Alfonsin
No dia
1º deste novembro, a Câmara Temática das economias do campo do CDES, com o apoio
da Fundação Estadual de Estatística, promoveu um debate, aberto ao público da
Feira do Livro, sobre a desigualdade social e a pobreza no Rio Grande do Sul.
Os dados
estatísticos sobre o problema, que a Doutora Clitia Helena Martins e o Doutor
Marcos Wink, pesquisadores da FEE, exibiram e criticaram, visando ouvir manifestações do auditório, são reveladores de
uma realidade social extremamente grave, desafiando providências inadiáveis,
tanto por parte do governo deste Estado e do Conselhão, quanto por parte da
sociedade civil que aqui vive .
Por mais que se discuta a adequação,
ou não, dos índices reconhecidos internacionalmente como de extrema pobreza
(pessoa que ganha menos de US1,25 diários de renda ou menos de R$ 70,00 mensais na nossa moeda,
dependendo da cotação do dia) e da pobreza relativa para a pessoa que ganha um
pouco menos do que o dobro disso, o
impacto dessa realidade, presente em alguns municípios do Estado, provocou várias manifestações das/os presentes,
algumas relacionadas com as causas dessa inaceitável injustiça social e outras
propondo, inclusive, possíveis soluções.
Em Redentora, Lajeado do Bugre e
Benjamin Constant, por exemplo, 29,7%
29,1% e 19,9% das populações locais, respectivamente, sofrem de pobreza
extrema, existindo outros sete (São Valério
Do Sul, Jacuizinho, Vicente Dutra, Engenho Velho, Derrubadas, Santana da Boa
Vista, Jaboticaba) que, embora em percentuais pouco inferiores,
enfrentam a mesma penúria, conforme o censo de 2010. Até Porto Alegre deve-se
envergonhar, pois tem 3,1% do seu povo aí enquadrado.
Entre outras variáveis de uma cadeia
sucessiva de carências humanas
interdependentes, sofridas por gaúchas/os de diferentes regiões cada uma
provocando outra, Dra. Clitia e Dr.
Marcos destacaram as diferenças existentes entre as pessoas, conforme a idade, o
sexo, a etnia, a cultura, capazes de influenciar a mensuração do grau de pobreza
e de miséria do povo. Sabendo-se que,
nessas situações, as pessoas não dispõem de água potável, a desnutrição é
crônica, estão sujeitas às epidemias e as doenças mentais e psicológicas, há uma
baixa expectativa de vida, são muito vulneráveis às catástrofes e mudanças
climáticas e, no Estado todo, elas ainda alcançam um percentual de 2,87% da
população total (mais de 306.000 gaúchas/os), não há necessidade de se insistir
no quanto as providências públicas e privadas destinadas a erradicar, de vez, um
mal de tais consequências, são improrrogáveis.
Como ocorre geralmente em discussões sobre
pobreza, o fato de considerarem-se circunstâncias de tempo e lugar onde se
encontra o povo pobre, se na cidade ou no campo, a existência, ou não, de
infraestrutura básica a cargo do Poder Público, como saneamento básico, estradas
para permitir transporte também à produção das/os pequenas/os proprietárias/os
rurais, a facilitação do acesso desse povo à escola, aos postos de saúde e
hospitais, ao crédito, à assistência social, entre outras coisas, apareceram
novamente nesse debate. Quando não consideradas, ignoradas por indiferença ou descaso, não enfrentadas em
suas causas, escondidos os seus efeitos, são fatores de criação e reprodução do círculo vicioso da
pobreza, capazes de realimentar a desigualdade social que a caracteriza.
O que já tinha sido referido como
pouco adequado pela Dra. Clitia e o Dr. Marcos - o costume de se medir a pobreza
com base exclusiva na renda das pessoas - mereceu apartes demonstrativos de que
esse índice é insuficiente para um diagnóstico mais acurado dessa injustiça
social. Sem descartar-se, é claro, a relevância de um dado como esse, o debate
mostrou preocupação bem mais abrangente sobre o problema. Detalhes dependentes
de intervenção pública, inclusive com a participação do povo vítima dessa
injustiça, apareceram em algumas opiniões que refletem confiança numa economia
capaz de ser traduzida como solidária, fundada em valores humanos não traduzidos
apenas em dinheiro.
Nesse rumo, o atual presidente da
Emater, Lino de Davi, chamou a atenção para a questão relacionada com a própria
finalidade do debate promovido pelo CDES: Qual é, efetivamente, o modelo de
desenvolvimento econômico e social que queremos para o Rio Grande do Sul? Embora
de modo não explícito, pelas limitações próprias do tempo destinado a palavra de
cada um, ficou patente a conclusão de que ele põe em séria dúvida o modelo
atual, na forma como esse trata a sua gente e a sua terra, particularmente em
tudo o que se refere ao acesso daquela à essa. Impossível deixar-se de perceber,
aí, como a responsabilidade da administração pública (reforma agrária por
exemplo) envolve um universo de questões que comprometem União, Estados e
Municípios.
Explorar a terra, a água e o ar como
o atual modelo o faz - agora em pleno risco de se transformar em lei pela nova
redação projetada ao Código Florestal - o tratamento que ele dá ao solo,
inclusive sob o peso indiscriminado dos agrotóxicos aqui empregados, toda a
atividade predatória do meio ambiente “justificada” pela rentabilidade
econômica, implica perguntar aos investimentos projetados sobre bens dessa relevância se isso
não vai piorar ainda mais a biodiversidade natural indispensável à vida do povo
e do planeta. Se forem colocados ao lado
do efeito perverso de concentrar dinheiro em poucas mãos, é certo que vão
prosseguir gerando pobreza, miséria e infelicidade igual ao contingente de
pessoas que integram os percentuais de Redentora, e outros municípios do Estado.
É certo
que a cesta básica, os programa RS mais igual, e Brasil sem miséria estão
procurando diminuir o sofrimento dessa multidão e merecem todo o apoio, mas
quando se pensa no tamanho e na complexidade do problema, parece certa a
diretriz tendente a não enfrentá-lo apenas com políticas compensatórias, mas sim
com a disposição de tratar a/o pobre e a/o miserável de acordo com o que elas/es
são realmente - pessoas que estão ou
ameaçadas ou já vítimas de um direito violado. O “minha casa minha vida”, mesmo
sob as restrições que muitos técnicos lhe opõem (repetição do BNH?) parece
pretender atacar o déficit habitacional sob essa concepção - por si só, esse
deficit infringe o direito humano fundamental de morar.
Prevenir-se contra uma ameaça,
reparar uma injustiça histórica como essa são obrigações de quem titula poder
democrático para isso, devendo cumpri-las com o cuidado, a rapidez e a
eficiência com que se cura uma doença capaz de levar o paciente à morte, perigo
iminente que ronda todas as pessoas mutiladas em sua dignidade pela pobreza e
pela miséria.
Então, até as apregoadas vantagens
do agronegócio, muito presentes nas discussões da Câmara Temática das Economias
do Campo, precisam ser interpeladas por seus efeitos sociais, pois, dependendo
da origem do seu capital e da sua aplicação, o agronegócio pode criar exclusão, como
denunciou oportunamente a professora Christiane S. S. Campos (“Pobreza e
exclusão nos territórios do agronegócio”, disponível na internet nos “Debates
FEE”): “... simplificar o agronegócio como sinônimo de negócios com produtos
agropecuários é desconsiderar seu viés elitista, sua dimensão
político-ideológica, o modelo de política econômica em que se insere, sua
complexa articulação interna e com outros setores da economia e sua capacidade
de expansão espacial por meio da construção de territórios, nos quais têm o
poder de, entre outras coisas, incluir ou inviabilizar a agropecuária e
agroindústria alicerçada no uso da força do trabalho familiar.”
Por tudo isso, foi possível
concluir-se, no contexto de alguns pronunciamentos dos participantes deste
evento, o entendimento de que o problema da pobreza no Rio Grande do Sul pode
mudar as prioridades até aqui presentes nas discussões do Conselhão bem como
influir decisivamente nas políticas públicas urgentes que pretendam socorrê-la.
Assim, deixa-se aqui uma sugestão à Câmara Temática das Economias do Campo do CDES como, talvez, um dos efeitos do encontro realizado no dia 1º deste mês. Se “todo o ponto de vista é a vista de um ponto” e existe um “lugar social” onde este ponto pode ser localizado, conviria uma visita desta Câmara ao ponto do Estado onde mais visível se encontra a pobreza, suas causas e seus efeitos: o município de Redentora. Lá se conferiria, materialmente, à vista dos problemas locais, com audiência direta da população pobre, em que medida pode a Câmara colaborar com as políticas públicas do Estado e as iniciativas da sociedade civil em favor da erradicação da pobreza e da miséria. Se o governador e, ou, algum/a integrante do seu secretariado quiserem nos acompanhar, melhor. Com uma denominação como essa Redentora não pode continuar precisando de redenção.
A situação de desigualdade e miséria na conformação social deste Rio Grande do Sul atual se reflete nos quadros do funcionalismo público do Estado. Enquanto mais da metade do Quadro Geral percebe um vencimento básico a menor que o Salário Mínimo nacional (e, a persistir a situação, com o SM 2012, será a integralidade desse Quadro!) o teto vencimental está em 40 (quarenta!) vezes esse valor.
ResponderExcluirÉ uma situação pré-capitalista, escorchante, desonrosa e sem decência nenhuma. E o gestor trata a pontapés.