11 de out de 2009

Causa e consequência

Zé H dominical abre suas páginas 4 e 5 para "denunciar" que o Incra está fazendo uma devassa nas terras da fazenda Annoni para investigar supostas vendas e ou arrendamentos de terras . O que a matéria do jornalista Carlos Wagner "esquece" de dizer é que o Incra tem a obrigação de fiscalizar toda e qualquer irregualridade que possa existir, e que a maioria dos colonos e o próprio MST não concorda e não participa de nenhuma irregularidade que alguém possa ter cometido. As regras para ocupação das terras são claras e quem vende de boca ou arrenda suas terras deve sim perder o direito ao uso da terra, ponto. Na realidade o que a matéria traz no seu bojo é uma articulação política para criminalizar o MST, impedir a Reforma Agrária e proteger os interesses do agronegócio, do latifúndio e dos que controlam a terra para fins comerciais . Quem acompanha o dia-a-dia da mídia guasca sabe do que falo e de quem falo.

Para nós, cidadãos urbanos, que vivemos em apartamentos apertados, em áreas verticais, sabemos muito bem o que significa o cu$to e o uso da terra, mesmo não sendo um agricultor sem-terra. Nas grandes cidades, em áreas menores que metade de um campo de futebol, há cosntruções que abrigam até 2 mil pessoas. Não nos damos conta do que representa a falta da reforma agrária no Brasil e a concetração do latifúndio no aumento do nosso custo de vida, seja ele para morar ou trabalhar, e é claro, do ponto de vista social e econômico.

Imaginem 100 campos de futebol do tamanho do Beira-Rio ou do Olímpico nas mãos de uma única empresa multinacional ou de um único dono, que provavelmente não possua matricula de compra de toda essa terra (grilagem). Pois bem, nessas terras passam rios, riachos e têm florestas nativas, e em muitas vezes são devastadas para atender ao interesses do agronégocio com a plantação de eucaliptos ou a monocultura de soja ou da cana-de-açucar.

Junto com isso vem o êxodo rural e a concetração da miséria nas grandes cidades, gerando desemprego, falta de infraestrutura e a criminalidade. O Censo da Agricultura Familiar comprova que o latifúndio gera apenas 1,7 emprego no campo para cada 100 hectares , enquanto que na agricultura familiar gera 15 empregos, além da renda que quase dobra em relação aos grandes latifúndios.
A concentração de terras no Brasil é tão grande e tão desigual que é possivel afirmar que nossas terras estão sendo ocupadas de forma silenciosa, por centenas de empresas, que veem nelas uma forma barata de obter lucro, alimentando a pobreza e a concetração da renda. Mais de 75% das terras agricultáveis são ocupadas por esses barões medievais e somente 25% da nossa terra está nas mãos de quem realmente coloca a comida na mesa do brasileiro. O Censo da agricultura familiar comprova isso.

Se ainda não nos demos conta da desigualde social que a concentração da terra produz e dos interesses dos grandes Barões da Mídia e de seus aliados, é porque estamos muito ocupados em trancar portas, colocar câmeras de segurança em nossas casas e clamar por mais segurança. Não entendemos ainda que a violência não é a causa, mas a consequência da concentração da renda e das terras nas mãos daqueles que sempre usaram e abusaram dos trabalhadores, inclusive de forma escrava.

O caso Cutrale, uma história de grilagem de terras


Na tentativa de desqualificar os movimentos sociais, principalmente o MST, os barões da mídia disparam diariamente seus torpedos, chamando os agricultores sem-terra de bandidoss, baderneiros e vagabundos. O cavalo de batalha da mídia de agora é a fazenda de 2.400 hectares que a empresa Cutrale se diz proprietária e mais uma área de 50 mil hectares localizada no centro-oeste do Estado de São Paulo, entre os municípios de Iaras, Borebi, Agudos, Lençóis Paulistas e Águas de Santa Bárbara. Com a ocupação da fazenda pelo MST e o foco da mídia nacional, agora é possível desvendar a verdadeira história dessas terras.

A midia guasca não fala, por exemplo, que toda essa área é do governo Federal e que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária de São Paulo confirmou que estão irregularmente em terras da União todos esses proprietários e ou empresas com fazendas.

A tal fazenda foi comprada pela União em 1909 para instalar colonos,mas segundo o Incra o projeto não vingou, e as áreas ficaram desocupadas, levando a um processo de ocupação irregular. O superintendente diz que o Incra, em 2003, foi condenado pela Justiça a implantar assentamentos no local. A partir daí foi feito um levantamento para identificar o histórico das terras. Os atuais ocupantes foram informados sobre a titularidade irregular.

Imaginem se hoje, com toda a tecnologia à disposição, ainda existe em larga escala a ocupação de terras do Estado, grilagens, queimadas e assassinatos, imaginem como era o processo no inicio do século passado, inclusive com a formatação de documentação dessas terras.

O MST publicou nota afirmando que ocupa fazendas que têm origem na grilagem de terras públicas, como acontece, por exemplo, no Pontal do Paranapanema e em Iaras (empresa Cutrale), no Pará (Banco Opportunity) e no sul da Bahia (Veracel/Stora Enso). São áreas que pertencem à União e estão indevidamente apropriadas por grandes empresas, enquanto se alega que há falta de terras para assentar trabalhadores rurais sem terras.

O MST também afirma que as famílias acampadas recorreram à ação na Cutrale como última alternativa para chamar a atenção da sociedade para o absurdo fato de que umas das maiores empresas da agricultura - que controla 30% de todo suco de laranja no mundo - se dedique a grilar terras. Já havíamos ocupado a área diversas vezes nos últimos 10 anos, e a população não tinha conhecimento desse crime cometido pela Cutrale.

O MST também lamentou o desvio de conduta de um integrante na ocupação e que o episódio não representa a linha do movimento. O MST de São Paulo reafirmam também que não houve depredação nem furto por parte das famílias que ocuparam a fazenda da Cutrale. Quando as famílias saíram da fazenda, não havia ambiente de depredações, como foi apresentado na mídia.

À sociedade, oa líderes do movimento pediram que não julguem a luta pela Reforma Agrária pela versão apresentada pela mídia, pois no Brasil, há um histórico de ruptura com a verdade e com a ética pela grande mídia, para manipular os fatos, prejudicar os trabalhadores e suas lutas e defender os interesses dos poderosos. Segundo o MST, apesar de todas as dificuldades, dos seus erros e acertos e, principalmente, das artimanhas da burguesia, a sociedade brasileira sabe que sem a Reforma Agrária será impossível corrigir as injustiças sociais e as desigualdades no campo. De nossa parte, temos o compromisso de seguir organizando os pobres do campo e fazendo mobilizações e lutas pela realização dos direitos do povo à terra, educação e dignidade.
* Grifo pessoal
Fontes consultadas: MST/ http://diariogauche.blogspot.com